domingo, 12 de junho de 2011

Os Três Porquinhos.


A ciranda foi rompida pelo corpo negro e as garras aduncas que rumavam em velocidade buscando os pescoços, e os porcos se distribuíram cada qual à sua casa, se escondendo da fome lupina!
A mais próxima e frágil moradia fora construída de palha pela preguiça de Cícero, e a porta não soou firme ao ser batida, e sua proteção lhe pareceu mais um artifício psicológico que uma fortaleza material para o gigante volume peludo que uivava ao redor.
As ameaças não trouxeram o “alimento” aos seus dentes, tão pouco o rosnar; então se resolveu por testar a fragilidade estrutural do esconderijo com o ar de seus possantes pulmões, e esta se desfez com tão pouca resistência que não pode deixar de se orgulhar! O porco se aproveitou da alegria e surpresa do predador e fugiu para se abrigar em uma cabana pouco mais reforçada.
Heitor questionou o amigo fugitivo  a respeito do Lobo, mas a resposta logo foi avistada e ambos se juntaram na tentativa de enxotar a criatura, mas ela se babava e afiava as garras na madeira da cabana.
O ritual de intimidação sonora, o cintilar dos olhos nas imperfeições da construção e logo as  patas começaram a forçar a porta, e o peso do corpo imenso envergou toda a parede, dando passagem àquela fome viva, mas os porcos já haviam deixado a casa pela janela tosca que nunca era notada quando fechada.
O Lobo se aproximou pouco confiante da estrutura da terceira casa, provou a rigidez das paredes de alvenaria e tentou mais alguns uivos, mas estes saíram roucos e menos assustadores. Se formava uma outra imagem da fera, já cansada, e convencida de sua falha em deixar que fugissem para lugar sólido, fora de suas possibilidades!
A conversa dos porcos se  animou na segurança da casa, e o Lobo era só uma silhueta no horizonte e as flautas encheram o ambiente, danças franziam os tapetes e desarrumavam o mobiliário!
Uma segunda roda de danças foi desfeita quando o terceiro porco olhou o relógio.
Os outros o inquiriram e ele disse:
-Eles são realmente pontuais!-Um furgão estacionou, e desceram figuras de macacões brancos.
A porta foi atendida com toda cortesia e depois das apresentações aqueles homens conduziram os dois porcos ao furgão sob as explicações de seu companheiro:
-É muito stressante para um porco passar por esse tipo de situação, e sinto ser necessário um acompanhamento psicológico além de um período de descanso em uma clínica de repouso para que esse infeliz episódio não lhes cause danos mais sérios!-Achegou se mais aos seus amigos.
Espero que esteja tudo conforme o combinado!Tudo conforme o alto valor que me cobraram!
-Tudo está perfeitamente preparado de acordo com o seu apreço aos seus caríssimos amigos!Acreditamos que sairão de lá inteiramente satisfeitos, e gratos por terem tão amoroso companheiro!
A despedida se deu entre abundante choro, e os abraços não puderam recompensar a bondade do terceiro porco, mas eram a única moeda disponível àquele tipo de situação!Beijaram se nas faces, e foram escoltados aos confortáveis bancos do furgão, enquanto um dos enfermeiros voltou à cumprimentar o terceiro porco.
Ao apertar-lhe o casco sorriu divertido e sacou um envelope pardo e o entregou:
-Essa é sua parte do dinheiro. Fiquei espantado com sua sutileza! A carne quase foi prejudicada pela tensão imposta pela trama, mas esse seu “cuidado e afeto” acabará por tranquilizar seus companheiros, e suas carnes continuarão tenras e saborosas!
-E quanto ao Lobo?
-Já acertei a parte que lhe cabia. Vinte por cento! Ele também fez um ótimo serviço!
-Realmente o trabalho dele convence!
-Assim como o seu!Um ótimo trabalho!
-Não é por isso que me chamam de Prático?-O porco gargalhou gostosamente.
-Quando tiver mais algum “amiguinho” em vista... - O “enfermeiro” deixou seu amigo porco ainda gargalhando e sumiu com o furgão do açougue levando sua saborosa e ingênua carga.

Anderson Dias Cardoso.
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