domingo, 10 de novembro de 2013

Um Resto De Mundo.


Era certo que sempre dormia em suas viagens à superfície, e ainda assim o itinerário e toda a rotina do dia lhe era repetida por sonhos tediosos de sombras uniformizadas sendo desentranhadas das tocas de mineração pelo sinal sonoro de encerramento de expediente.
Continuavam  o ritual aqueles passos anestesiados a formarem filas intermináveis; de crianças à muito velhos, seres que teimavam em abanar as partículas de pó fino que se tornara íntimo do traje de ofício, e que era necessário deixar antes se despir e poder se amontoarem num dos diminutos espaços de estofado carcomido do transporte!
Sempre era tudo um pouco mais turbulento, e distorcido enquanto permanecia de olhos fechados, meio inconsciente, mas ainda assim quase não escapava da previsibilidade do dia à dia ao qual já vinha experimentando a alguns bons anos.Havia ainda os tais sangramentos nasais por conta da troca das máscaras de profundidade por filtros aéreos internos; incômodos de certo, mas ao menos não impedia a fala!
Quanto ao calor abafado de tantos corpos, este induzia a uma quase nudez geral, resultando em tentativas de todo tipo de promiscuidade sendo no entanto rechaçada por um ou dois monitores armado de borrachas que por vezes se faziam ouvir quebrando dedos e até braços!
Aquela subida, em particular, deve ter demorado as costumeiras duas horas ,tempo para que o corpo se acostumasse com uma variação de mais de quinhentos metros, e os recentes percalços com lamaceiros em determinados pontos, muito comuns nessa época do ano.
Despertou quando ouviu que a agitação denunciava a chegada na área de desembarque  e,ainda muito sonolento se viu sendo encaminhado aos galpões de averiguação, onde nenhum orifício era poupado da desconfiança de estar carregando qualquer minério ou pedra de valor.
Como rotinas, tudo era feito com tal indiferença e desprezo que as consciências se desligavam, mesmo que com corpos empurrados, beliscados,agredidos, humilhado, mas geral se reassumiam enquanto caminhavam para algum container de distribuição de suprimentos, ou, quando o toque de recolher os permitia visitar um vagão-bar para apreciar, mais do que a bebida, a companhia de uns últimos vagabundos alegres que ainda preferiam a nostálgica degradação alcoólica à “viagens de implantes”!
Como de costume empurrou umas dúzias de cansados que se afunilavam tentando alcançar a estreita porta única; a uns moveu, outros vestiam dimensões e pesos que estavam para além de suas forças; e enquanto se arrastava para seu descanso  olhava melancólico para as luzes que marcavam pontos naquela gigantesca cratera.
Comentou com voz fanhosa, de si para si que aquela garganta monstruosa ainda iria engolir ambas as cidades, a móvel e a de pedra, e foi surpreendido pelo olhar e resposta dum esqueleto baixo e calvo de que isso seria assim, já que haviam encontrado um “veio gordo” à uns oito quilômetros dali, e que alguma maquinaria já esta sendo deslocada pro lugar ainda naqueles dias. Tudo isso fora dito com muitos gestos, e indicações de um dedo sujo e atado por um nó de trapo que lhe servira de estanque para o corte.
Achando interessante o mexerico do homem resolveu perguntar que fim levariam as famílias assentadas, a curiosidade atraiu outra alma,e uma mulher raspada e de cor acrescentou que haviam boatos de que a polícia ameaçava e obrigava os cidadãos da periferia a assinarem sem reembolso suas “cartas de despejo”!
Nessa altura a conversa já não mais pertencia a aquele pequeno grupo e uma voz sem rosto lhe disse às costas que a TV Estatal desmentira tudo, outra brincou que bastava dar aos desabrigados (em sua grande maioria alienados) alguns créditos para gastarem em neuroestimulantes ou incursões em suas “particulares versões de um mundo melhor”, ainda outros concordavam que na verdade aquela região pertencia ao Estado, e que os tais miseráveis mereciam ser expulsos afinal, e outro dizia, e outro, e outro...Logo todos zumbiam suas vozes e procuravam se aproximar do epicentro de onde surgira o diálogo, e os comprimiam e sufocavam....
-Calem a boca!Tem um “borrachudo” ali...- alertou alguém sensato e naquele mesmo instante as vozes indignadas sumiram das bocas; cada qual já olhava disfarçando para uma direção oposta ao debate, mas a mão da mulher se estendeu, e apertou seus calos contra os dele tentando se manterem juntos até encontrarem a rua, mas isso não foi possível, e eles foram distanciados um do outro pela força do fluxo dos que deixavam o lugar, e não notaram um no outro que se separavam sorrindo.
A urgência e a agitação sempre aumentava  naqueles metros onde uma demagoga liberdade sorria seu simpático engano aos que deixariam o complexo, e era engraçadamente estranho se comparar com os gigantescos muros que guarneciam aquele locar.
Fora, uma centena de passos num lugar onde aquela massa turbulenta começava a se dispersar em suas caminhadas solitárias de regresso, caronas improvisadas ou uma demorada espera por transporte público e ele havia decidido se albergar naquela vizinhança, num lugar costumeiro onde se encontrava um vagão de rações bem próximo e haviam módulos com cubículos meio higienizados e ao menos um banheiro comum por esquina!
Vinte e três minutos de caminhada calma e visitava o relógio, calculando se haveria tempo para tomar um trago e completar seu percurso sem ser espancado, ter seus pertences confiscados e assinar outra advertência, que consistiria em mais uma indesejada dedução nos créditos salariais dos próximos dois meses.
Duvidou do perigo, dobrou outra esquina e procurou aquele bar itinerante de paredes encardidas, risadas estridentes e um agradável aroma de fumo natural!Naquela noite suas vistas não o divisaram de pronto, mas em seu lugar se encontrava uma lavanderia com selo ecológico estranhamente sinalizada por uma fachada em neon multicolorido!
Cidades de pedra eram sempre lugares mais agradáveis, mas como não se divertir com todo aquele improviso dinâmico de prédios inteiros que sumiam de onde deveriam estar e reapareciam só Deus sabe onde...Quando reapareciam!
Além da caminhada agora o estômago começava a incomodar, foi quando o som de algazarra foi se aproximando notou que os corriam pela penumbra eram crianças, daquelas descamisadas, a fazer festa  provavelmente por algum furto bem sucedido.
Se perguntou se suas mães não temiam a repreensão e cancelamento de seus benefícios pelo Estado, mas logo que avistou aquela tão conhecida porta de acrílico se esqueceu do que pensava.


Continua...
Anderson Dias Cardoso.
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