domingo, 13 de outubro de 2013

Vi-vendo-Se!



Despertou de sobressalto, mente confusa, e decidiu se acalmar sorvendo um resto de café descafeinado que fora esquecido desde a manhã do dia anterior.
O gosto era horrível de qualquer forma, porém se seu vício devia ser combatido de alguma forma, e, pensando se abandonaria de vez tal cheiro e sabor, decidiu-se por trocar por algo menos nocivo, ao tempo que semelhante.
Segurava a xícara com as duas mãos, e as pernas dançavam ao passo que um dorido calafrio lhe escalou a espinha, espalhando o desconforto por ombros, seguindo como uma leve dormência para suas extremidades.
Fechou os olhos, sentiu-se nauseado...
Memórias existenciais de seu próprio futuro tão detalhadas como as que vinham experimentando eram difíceis de serem degustadas, mesmo para grandes mentes como a sua!
Vomitou um pouco, enxaguou a boca e cambaleou de cômodo à cômodo até encontrar sua cama, e lençóis semi-limpos!
Oito horas depois, e todos os quadros de sua existência encaixados em sua linearidade, com todos os elementos humanos, espaciais, circunstanciais, sensuais, sensoriais se encerrando e se completando por todas suas perspectivas idiossincráticas!
Foi o trigésimo primeiro dia daquele ciclo, e a revelação de seus últimos dias!
Agora estava tudo completo!
Cada dia à partir do primeiro em que lhe vieram aquelas alucinações preditivas, até o encerramento de sua jornada naquele caixão envernizado, rodeado por cinco coroas, algumas dezenas de flores e uma boa quantidade de conhecidos chorosos; pouco antes de sua octogésima terceira primavera!
Uns dias depois, recobrado do espanto e dor das revelações, iniciou o balanço do resumo de cada dia, pesando se alguma modificação seria proveitosa, se as escolhas foram sensatas, e se as oportunidades se resolveram em seu melhor.
O exercício durou quase um ano, dos quarenta e nove restantes; e nesse ínterim, repetia cada cena de acordo com o já vivenciado em sua memória do que ainda experimentaria.
Confessava que às vezes era meio monótona a duplicação de si mesmo, freqüentemente sentia se limitado pela segurança que escolhera por meio de seu roteiro existencial; e, cansado por ter que se atentar aos detalhes ínfimos e, provavelmente desnecessários, como gestuais, roupas, tempo e espaço para realizações; mas isso garantiria uma vida longa e satisfatória, dentro de suas próprias limitações! 



Anderson Dias Cardoso.
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