quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Arte de Criar Pequenos Deuses...


Depois que descobrira, milagrosamente, a arte do vôo a delicadeza de seus pezinhos nunca mais provaram soalho; e as perninhas, já descarnadas pela negligência aos alimentos mirravam a cada dia um pouco mais!
Não haviam asas às costas que justificasse o alçar do corpo miúdo, ou explicação para as concessões da gravidade à tão despretensiosa alma, que desde o nascimento fora comprovada não ser anjo!
Se houve estranhamento inicial da parentada, foi pretexto para supersticiosos benzimentos!
O vigário tentou beatificar a criança, a negativa dos pais tornou-se em excomunhão, e ao povo leigo a criatura era fada; com todas as manifestações do imaginário folclórico!
Logo que os rumores da criança volante acorreram das cercanias os supersticiosos e seus incensários, e tomaram à despeito dos esforços dos pais em proteger a criança que somente desejava voar!
A reação familiar denotava, aos imaginativos camponeses, a intenção de resguardar a pequena divindade para um egoísta usufruto!
Então, os iracundos juntaram um corpo ao outro; esfolando-os por querer impedir as honras do culto à pequena e tímida deusa!
A brutalidade aos genitores maculou-lhe a razão, e quando planou eternamente a criatura sobre as orações, os seus trejeitos eram vazios, suas profecias eram dúbias, e seu olhar catatônico...



Anderson Dias Cardoso.

Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...