quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Frágeis Existências 8°Capítulo.

O arrastar de madeira foi o que o despertou; seu quarto pareceu vazio de mobília e em seu incômodo tentou movimentar o quadril. A perna esquerda subiu leve ao comando, mas a dor fechou seus  olhos e rangeu-lhe involuntariamente os dentes.
-Desculpe!Tiveram que a cortar para que não contaminasse o resto do corpo!-A voz soou tranqüila ao lado esquerdo do colchão de palha.
Dreh chorou tantos minutos quanto achou necessário para lamentar sua pena e apaziguar o mínimo de suas exaltações.
-Minha mobília... Alguém quer me despejar?
-Eu a tive que vender para pagar os custos da amputação.
Dreh sentiu fortes náuseas e, voltando se para sua direita o estômago tentou expulsar alguma substância, mas só lhe escapou dos lábios o hálito ruim e um gemido.
-Você só se alimentou de água durante o tempo em que passou inconsciente. Tive medo de que se engasgasse com a comida e acontecesse coisa ainda pior...O dinheiro só bastou para acertar a cirurgia.
-Tome, mastigue um pouco desta massa de cereais e seiva de Pahije, o fará se sentir alimentado e diminuirá as dores.
Esfregando as mãos na parte limpa do lençol Dreh se higienizou, e tomando entre os dedos um bocado da mistura notou que a seiva havia retirado todo o prazer do sabor e o substituiu por um gosto acre. Deglutiu o que havia entre os dentes e não quis provar outro tanto.
O anestésico era potente e logo as pálpebras pesaram e a dor o abandonou de quase todo.
-Ouvi dizer que se iria daqui...
-Ainda pretendo. Só espero que se recupere de todo.
-E suas terras?
-Ohik não as quis comprar; as venderei pelo que me ofereceu Dalu.
-Mas... foi declarado ilegal vender terras...-As palavras agora eram difíceis.
-Partir também foi proibido, e os anciões formam uma milícia, além dos construtores e reparadores de poços e valas de irrigação.
Devo partir logo, para que não haja quem o faça primeiro, e se endureçam as penas aos que o façam. Tenho mulher e filha, não as quero feridas.
-Em uma semana a perna estará melhor e poderei gozar de alguma independência, após isto você fica livre para partir e, como gratidão lhe comprarei os campos.
-Durma meu amigo, o remédio é forte e já o faz delirar!
-Mete a mão no forno de baixo, e encontrará minhas economias de taverna.
Quion riu-se gostoso, Dreh fez o mesmo, mas com boca torcida e dormente.
-Vá até o forno, seu estúpido!És um dos únicos à quem minha gratidão não me permite mentir!
O homem resolveu-se por não contrariar o doente e levantando-se foi até onde fora ordenado e meteu a mão às cinzas e sacou um amarrado médio de peles. Sacudiu-o e ouviu tilintar muitas moedas, então se riu da perspicácia do amigo.
-Então, por isso mendigava bebida nas tavernas!Guardava seu ordenado enquanto lhe pagavam as despesas!
-Não era à toa que me detestavam!
Ambos riram, e Quion deu passos rumo à porta. - Niad virá trazer algo para comer logo que acordar do efeito da seiva.
Dreh já dormia então.

Continua...
Anderson Dias Cardoso.
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