sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Madame Elke.

Madame Elke, a cigana era o nome e a promessa era que seus poderes desvendariam, através da quiromancia ministrada nos scans de suas mãos, preferencialmente enviados via email, num arquivo PDF; todos os detalhes relevantes de seu futuro imediato. A garantia era pela programação de todo um ano, uma semana, ou um plano modesto de um dia, ou seu dinheiro de volta.
Não era estúpido, curioso talvez, e havia uma quantia devolvida em seu cartão de crédito, de alguma das coisas inúteis que costumava a comprar, que lhe incomodava por ser uma cifra quebrada que lhe lembrava algumas vibrações numerológicas que procurava sempre evitar.
Efetuou primeiramente o pagamento e sentiu-se aliviado, depois se resolveria a respeito de mandar ou não o registro das mãos, já que, no mínimo alguém poderia copiar suas digitais pra algum saque, investigaria sua vida, ou faria mesmo o que o anúncio oferecia, se utilizando, porém, de suas possibilidades futurológicas para lhe manipular o destino.
Por fim, enviou as informações. Recebeu o email prevendo um acidente automobilístico, envolvendo um fusca 79; na terça lhe tentariam vender empadinhas recheadas com salmonela; na quarta as pancadas insistentes e matutinas não haviam de ser pra lhe entregar a conta de energia, mas era alguém deixando em sua porta o melhor amigo que teria em toda sua vida, Mike, o gato (essa era uma previsão a longo prazo, um bônus pela sua primeira consulta). Quinta, haveria uma peça única daquela camiseta do The Doors que ele procurava, em uma promoção nas lojas C&A. Sexta traria chuva.Muita chuva. Convinha desligar a energia, guardar os eletrônicos e outros pertences de valor em um lugar bem alto. Sábado, visita de sua mãe? Gostou da brincadeira mas não, a mãe não voltaria naquela casa, ou mesmo, a lhe dirigir palavra.Ele ter descoberto aquele caso de espancamento, as traições do presente namorado, e a falta de amor próprio (e pelo próprio filho), a afastaram há dois anos, talvez, por toda a vida.Não seria uma profecia paga no cartão de crédito que a traria de volta...
Segunda feira, e o carro irrompeu em alta velocidade pelos muros, o pequeno espaço gramado que cultivava como um quintal, e as precárias paredes de tijolo furado de seu banheiro. A água estava morna, e com pouca pressão, como todos os dias. Felizmente não houve sangue, ou fraturas.
Para a empadinha, carvão ativado, paracetamol, e água de coco.Quanto ao espancamento da porta, o animal não o impressionou muito, era feio, magro e tinha a ponta de seu rabo partida, todavia a pena foi mais forte e resolveu não  descartá-lo. Do alagamento, escapou por muito pouco de ser eletrocutado.Sábado, e o jantar com sua mãe foi adorável, à despeito da cabeça baixa, a chegada e partida sem explicações, e a aparência magra e abatida que desfilava.Ele sentira sua falta, mas resolveu não mais intervir em sua história.
Ficou satisfeito com o serviço de prognósticos, ainda que lhe tivessem lhe dado o “nó” num dos dias. Havia valido a pena, e lhe intrigado a respeito de quem seria o canal daquelas tão precisas previsões. Resolveu os contatar, e investigar, mas logo que se apresentou como um cliente satisfeito, foi desligado. Tentou uma, duas, três... Uma centena de vezes, até que o outro lado se deu por vencido, porém respondeu suas questões de forma evasiva, e desinteressada. Não saberia nada sobre a tal mulher, não fosse um daqueles casos onde as pessoas acham que desligaram seus telefones. A conversa entre eles durou alguns minutos, e envolveu do assunto o qual tinha interesse, à pornografia.
Naquele dia descobriu que a magia havia tomado outra forma.
Madame Elke, era o nome do algorítimo. Ela realmente previa o futuro, e isso era assustador.




Anderson Dias Cardoso.






   
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