domingo, 16 de junho de 2013

Pequenas Misérias, Grandes Negócios.

 Logo após o tilintar de algumas moedas na gasta caneca esmaltada o pedinte erguia seu fundo à vista, e espalmava a mão para reter um momento o doador:
-Por favor, poderia me ajudar à tornar minha profissão mais eficiente?
-Claro!Mas a pressa me constrange!
-Meu formulário é simples, o redigi junto à um esmolante o qual fora estatístico... Ele conhece as “manhas”!
-Então estão em uma parceria?
-Pensamos em formar uma cooperativa de miseráveis!- As unhas negras já haviam agarrado papel, e um toco de lápis.
-É óbvio que o fim de tudo é uma planilha em meu Mac, mas em expediente é bom manter o profissionalismo!
-Muito justo!-Respondeu o encabulado.
-Respeitarei sua privacidade, e pularemos nome, endereço, CPF e outros dados pessoais!
-Por favor!
-Comecemos:
-Visita sempre estas cercanias?
-Trabalho logo adiante, num escritório de contabilidade.
-Faz o percurso à pé, se utiliza do transporte público ou dispõe de veículo?
-Possuo carro, mas meu cardiologista me recomendou caminhadas leves!
-Filhos?
-Dois... Moram com a mãe, mas há possibilidades de não serem realmente meus!
-Complicado!
-Sim!Cada vez que pago pensão penso se estou sendo enganado!
-Seu tempo... Lembra-se?- O estrapeado apelou para a urgência para escapar dos lamentos!
-Claro!Claro!...Acho que preciso de um analista!-Desculpou-se com seu entrevistador.
-Posso te indicar um com doutorado!Encaminho-lhe ao seu container logo que encerrarmos a lista!
-Obrigado!
-Voltando às questões então:
-Quais destes sentimentos lhe vieram à mente quando me viu estender a caneca?
1-Asco, 2-Pena, 3-Indignação? Justifique sua resposta.
-Acho que as três! Seu cheiro me nauseou um pouco, mas me experimentei em sua situação, ao tempo que “nos” censurei por fazermos tão pouco e tratarmos - lhes com indiferença!
-Vocês até que fazem o suficiente, o problema hoje em dia é que o mercado foi saturado!Já não está fácil viver dignamente!
-Obrigado por me aliviar de minhas culpas!
-Disponha!
-Mas, Roberto...
-Este não é meu nome!
-É só um nome padrão, pra tornar a experiência mais pessoal!
-Paulo!
-Como queira!Paulo também soa bem!Então, Paulo... Quanto estaria disposto à ofertar pela pena alheia?Com Que freqüência, e qual o maior valor já desembolsou para ajudar à um desprevenido?
-Geralmente me desfaço das moedas, pois elas pesam no bolso, e tilintam irritantemente enquanto caminho; mas quando há só notas, meu padrão é dois, cinco e sete; geralmente pulverizados em três ou quatro doações entre meus vencimentos!
-Parabéns!Você é um cidadão que contribui acima da média!
-Obrigado!Já tive vontades de seguir uma carreira filantrópica!
-Algo independente, ou tem em vista alguma ONG?
-Gosto da força do corporativismo!
-E isso dá uma boa grana!Conheço um morador de rua muito bem sucedido, e que o pode prestar consultoria!
-Me anota então esse outro endereço!
-Claro!...Retomando a entrevista: Quanto acharia digno para um salário de um mendicante?E, por favor, leve em considerações os fatores de insalubridade!
-Hum... Creio que uns 900 reais seriam justos!
-Hum... -Anotou com um sorriso disfarçado.
-Finalizando eu repetiria a frase que me utilizei como abordagem, agora em forma de pergunta!
-O que eu faria para lhe tornar a profissão mais eficiente?
-Exato!
-Acho que olheiras de preocupação lhe cairiam bem, uma melhor localização, a aquisição de um ou dois cães, e talvez o cultivo de uma gangrena ou qualquer ferimento purulento lhe confeririam melhores rendimentos!
-Está tudo anotado!Muito obrigado por sua atenção, Roberto!
-Paulo.
-Sim... Paulo!E tome lá os cartões de meus indicados!Espero que sejam bem úteis!
-Não foi nada!Tome aqui meu cartão!Certamente logo você necessitará de um contador!



 Anderson Dias Cardoso.
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