domingo, 23 de junho de 2013

Compulsões.

Era sempre preciso acertar algo; não que fosse necessário à maioria desapercebida, mas lhe aliviava as tensões compulsivas.
Os círculos de compasso com grafite apontado à gosto, as meias dobradas sobre os sapatos de verniz, o posicionamento dos talheres, os rótulos dos produtos alinhados e à mostra, o tempero correto dos pratos, os apertos de mão com sacudidelas, timing e pressão adequados, o arranjar cuidado das madeixas...
No trabalho, sua excentricidade se extrapolava, e se este refazia o refeito eram vezes e milhares!
Se o resultado demorava um pouco, era certo que a perfeição cobrava tempo!
Além das manias, se enriquecia de amizades, às quais tratava com seu esmero patológico, das quais uma, ainda assim o surpreendeu em delito de mentira!
Disse sentir-se deprimido na ocasião da festa; mas mandou presente e congratulações.
Ela lhe disse que ele mesmo lha contara com sorriso que não iria, mas isso em nada afetava amizades de longa data!
Ele se constrangeu, e o corpo dançou de vertigem...
Fugiu cambaleante para casa!
Na manhã seguinte, para reconquistar a confiança, resolveu transformar em verdade a mentira, e preparou o corpo e mente com toda sintomática pertinente; comprou todos os clássicos da psicanálise, marcou hora em analista, se medicou por conta própria...
Em poucos dias já não conhecia higiene, convívio e até responsabilidade!
Trancara-se em um desespero forjado , agora esquecido até de suas manias, menos uma...
Havia tornado perfeita a mentira, e agora ela o estava matando!



 Anderson Dias Cardoso.
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