domingo, 8 de julho de 2012

Eu...Não Sou Você!

Estudara, e se empenhara em seus projetos de imortalidade relativa desde sempre, e sucedendo graduações meritosas nos ramos pertinentes da medicina procriativa e pesquisas de métodos de clonagens descobriu como burlar parcialmente os conselhos de moralidade e ética, assim como conceitos religiosos aos quais considerava retrógrados e impeditivos da evolução dos estudos que levariam à uma longevidade, senão, à quebra do paradigma da morte.
Clonou-se a si mesmo, e em silêncio viu o ventre contratado se expandir em uma vida projetada e programada. Esperou com ansiedades convulsivas até a chegada da criança...
Ela, nem de longe o lembrava em aspecto!
Confirmou cada exame, cada planilha, refazendo cálculos e requisitando exames cromossômicos; comprovou, porém, que as mudanças estruturais da criatura não se tratavam de alguma trapaça da contratada, e era uma possibilidade, ainda que remota, de brincadeiras de genes recessivos, ou mutações circunstanciais.
A criança foi crescendo, assim como a estranheza de dar às mãos à uma pequena imitação de si mesmo (que nada o refletia) em um passeio dominical em um parque.
Resolveu não se arriscar em outro empreendimento, já que sua consciência o impedia o descarte humano, e logo teria que se preocupar em resolver problemas genéticos herdados pela criança, além de características de envelhecimento precoce e outras doenças e falhas dos processos ainda imperfeitos de duplicação humana.
Em sua desilusão de uma réplica de exterior independente pôs se a tentar se propagar, se expandir imprimindo sua consciência parcialmente nessa nova vida de uma forma intelectual e ideológica.
Retirou-se com seu filho experimental, e o privou de contatos exteriores de qualquer espécie!
Vestiu-o com suas roupas, repetiu-lhe seus jargões e ideais ao pé do ouvido enquanto dormia, alterou fotos de sua infância com a face do menino, ensinou-o a gostar de blues e odiar comédias de situação e dias chuvosos!
Houveram psicotrópicos, subliminares, ameaças, violência; e a alma já crescida se rebelava, e se tornava em persona distinta, limitada e raivosa; com o corpo e a psiquê se rebelando, e somatizando as agressões em inapetências, vertigens, convulsões!
Em meio aos caminhos de transformação sempre haviam murmúrios, resmungos ignorados que remetiam,  provavelmente à dor causada pelos métodos...
O destes pareceu tomar forma no dia em que examinava e comparava o vocabulário à planilha proposta:
-Eu não sou você... -foi uma frase mal pronunciada que o trouxe à realidade.
Com o acerto de um pagamento substancial, e uma pensão vitalícia um casal aceitou o jovem sem mais perguntas; mas ele, em frente ao espelho via sempre uma imagem o acusar de ser uma outra pessoa...
Não se lembrava bem quem!

Anderson Dias Cardoso.

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