domingo, 27 de maio de 2012

O Homem Árvore.

Alugara um quarto, em uma pensão de pouco prestígio e era visto vez em quando, visitando a peça.
Exigira aos proprietários que o espaço permanecesse hermético, livre até mesmo de qualquer propaganda ou impressos vinculados ao seu nome, e havia removido, antes da mudança, cada móvel.
Caiou as paredes com um branco, assim como as janelas, e iluminou os ambientes com a fluorescência fria de lâmpadas de baixo consumo, fazendo sumir os limites do lugar.
Em seus dias de mistérios eram trazidas sacolas e quando a porta o abandonava à solidão desejada se despia do peso das roupas, se ligava à bolsa de colostomia e introduzia os cateteres de soro para hidratação e se estendia como a árvore que acreditava ser, tendo por penduricalhos os tais recipientes de suporte.
Então a vida passava de sua celeridade para uma calma reconfortante, e ele sorvia intravenosamente o líquido e minerais próprios ao seu corpo misto, e ia realizando seus processos fotossintéticos com a artificialidade da lâmpada elétrica até que o incômodo de um alarme o despertava de suas contribuições ecológicas; e ele voltava à sua agitação móvel!
-Prefiro ser carvalho!-Dizia-se quando descia as precárias escadas, e lidava com o desprezo disfarçado de seus anfitriões.
Como passava por um período de ócio visitou seu espaço na semana seguinte, e ouviu buchichos; nas outras notou o incômodo e irritação dos circundantes e então preferiu subir apressado os lances para se fugir de qualquer hostilidade.
Já no abafamento do cômodo, se dissolveu na brancura do seu momento e aprofundou-se em suas trocas ambientais até que a incandescência do ambiente exterior rompeu a harmonia de sua comunhão.
Ele relutou-se em abrir seus olhos, naquele universo íntimo preferia se utilizar sinestesicamente de seus outros sentidos; esperou então que os passos pesados estivessem bem próximos para se assustar com a estranheza da cena.
Eis que tentavam pairar uma trinca de beija-flores de uns 150 quilos, de cara empoada e asas mirradas e uma paleta estroboscópica de cores, tanto nos olhos quanto nos vestidos, dançando convulsionadamente em torno de seu tronco e galhos!
Era repugnante ver homens de meia idade se prestar à tamanho ridículo para obrigarem o abandono da propriedade!
Recolheu, nauseado, o pouco que sempre trazia consigo e partiu, tendo em mente o aluguel de alguma casa de campo e paisagens bucólicas...
-Realmente, as cidades são hostis às árvores!

Anderson Dias Cardoso.
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