domingo, 4 de dezembro de 2011

Frágeis Existências 10°Capítulo.

Esperava o prato vespertino e a demora o incomodou muito; levantou-se meio desajeitado sobre a única perna se foi a investigar algum movimento nas sombras que já se manifestavam à boca da noite.
Viu uma luz se acender aqui, ali, até que todas as poucas que agora eram postas a queimar formassem manchas claras nos mares de escuridão.
Preocupou-se quando a dor de fome subiu a bile à boca, recordando-se que em momentos de tensão municipal a ausência de qualquer próximo podia bem dizer más notícias.
Arriscou a descida íngreme da fina estrada de sua casa e, amparado pela forquilha cortada sob medida para uma pouca autonomia reivindicada cambaleou quase firme por umas oitenta braças.
A sandália, rebelde por não ter sido atada bem ao tornozelo dançava sob os pés e conspirava com os seixos para o levarem ao chão.
A empresa deu mais que certo, o pé vacilou na redondeza das pedrinhas e foi se desprendendo do galho e seu equilíbrio até que as nádegas se sujavam na poeira do caminho e as costas se arranhassem na agudeza de pedras menos delicadas.
As costas se molharam um pouco de sangue, os tendões que atavam o ferimento esticaram na queda, forçando a pele até o rompimento.
A dor o engasgou.
Tossiu, tossiu, tossiu, e quando procurou ar o pulmão se encontrava ocupado em contrações e distensões involuntárias e violentas, e ele sufocou.
Tentou altear o corpo, mas não houve força que bastasse, os olhos lacrimejaram muito e o peito rouquejava o som de sua insuficiência.
O corpo parou suas contorções, se acalmou em uma pose desconfortável enquanto os ferimentos de sua ânsia e queda escorriam um pouco mais de sangue.
Quando a consciência resolveu-se por voltar ao corpo uma ponta de sol escalava o horizonte, ele notou sua escora lançada a cinco braças de seu lugar e quando baixou os olhos à si encontrou contornos escurecidos de sangue e muco.
-Acho que terei que buscar meu desjejum!-Disse à si mesmo enquanto verificava que o ferimento não se agravara tanto quanto imaginava.
  Desta vez atou bem a correia, e andou seguro, em passos mais curtos até encontrar uma porta a se bater.
-Sabur?-A porta se abriu desconfiada, e um rosto duro, antigo, mas de poucas rugas o atendeu com voz abafada.
-Foi recrutado para cavar poços e saltou antes do sol... -A mulherzinha não o convidou a entrar, antes, deu um passo fora e tratou com ele ali mesmo.
-Sibal, assim como vê, estou ferido... Estava sendo cuidado por Quion e sua família, mas ontem e ainda esta manhã não tenho notícias deles e já me preocupo!
A mulher pareceu pouco sensibilizada com o aspecto sujo e manchado de Dreh, pensou um pouco e abriu a porta atrás de si.
-Sabe que não gosto de meu marido em companhia de bebedores de taverna, e desde que somos vizinhos o conheço bem por experiência e conversas de Sabur e tantos outros... -Respirou como se lhe fosse exigido grande esforço para manter os bons modos e o tom de voz- Entre que lhe preparo pão e leite e mando que Latar veja mais adiante se alguém sabe de Quion ou qualquer outro diabo que queira.
Dreh sabia bem como ser desprezado sem demonstrar qualquer emoção, acompanhou a entrada da pequena mulher e se sentou na primeira cadeira que achou.
-O sangue de suas roupas me está enojando agora que não me concentro na raiva que senti de você quando me bateu à porta, vou lhe preparar uma muda limpa e alguns trapos para emendar o ferimento, e se quiser lhe fervo alguma água para se lavar.
-A virtude é maior quando aplicada ao inimigo!Agradeço e aceito a caridade!
Dreh deixou a sala pouco mobiliada e quando cruzou a cozinha viu reluzir uma coleção de tachos e panelas de cobre batido, algumas vasilhas de barro ornado guardavam água fresca e o fogão ardia um fogo ainda tímido que aqueciam o forno e um pouco de água para o banho.
Ela gritou o nome de seu filho enquanto ordenava que se levantasse a trouxesse noticias de Quion, não houve qualquer resposta.
-Aposto que algum cobrador lhe arrancou a perna como pagamento, ao invés do que se diz por ai que teria sido comida por cães!- O homem sentado sorriu com a certeza de um outro sorriso se formando nos lábios dela após o comentário ferino.
-Como sempre as mexeriqueiras foram pouco eficientes em seu ofício de relatar a vida alheia!Não, minha perna foi mordida, não comida!E, novamente não, cobradores não tem nada à ver com a história visto que pago o que devo sempre que posso e gozo da confiança de todos que me conhecem bem!
-Meu primo Bifug não endossaria seu comentário e além dele posso citar ao menos uma dezena de outros de mesma opinião caso não se sinta constrangido!
-O cheiro de seus pães continua maravilhoso!-O sorriso cínico era resposta pronta àquele tipo de situação.
-Vá ao banheiro que eu lhe levo a água em instantes.
-Latar, garoto preguiçoso, levante agora antes que me irrite e faça o que lhe mandei!-A voz agora era rude.
O banho foi deveras dolorido, o sangue havia se agregado ao tecido e quando este foi arrancado teve vontade de chorar; quando saiu desfilava uma policromia absurda em duas peças de mangas muito compridas e barras que se arrastavam no chão batido.
-Belas roupas!Acho que me devolveram até um pouco de cor ao rosto por reflexo!
-Eram de um primo anormal.
-Aposto que me caíram melhor que nele!
-Pode se sentar à mesa, ai tem um bom bocado de pão, leite, duas espigas de milho e manteiga de cabra, e é tudo que posso oferecer!
Dreh tomou o lugar indicado e logo a mão da mulher se estendia à cana em que ele se apoiara.
-Me empreste sua perna que tenho que despertar um preguiçoso espertinho!
A mulher desapareceu rapidamente atrás das cortinas improvisadas e logo se ouviram cochichos, depois, outros gritos e então um garoto de pouco mais de dezoito primaveras entrava à cozinha com sua testa marcada. Quando os passos da mulher se aproximaram de onde estavam o garoto olhou choroso ao hospede situacional e tomou o rumo da rua.
-Com conversa tudo se resolve!
Comeu deliciosamente tudo que havia posto à mesa e esperou sozinho no ambiente até que o garoto chegou anunciando o que acontecera desde uns oito quarteirões.
-O Sábio Apóstata convocou um ajuntamento na praça do palácio!Quion e a família foram presos sob a acusação de intentarem deixar a cidade!
Enquanto a multidão se deslocava rumo ao lugar ordenado Dreh se apoiava aos ombros do garoto e sua mãe para que fosse possível chegar em prazo.
Andaram um tempo e meio, até avistar a praça e sobre a escadaria haviam encaixado imenso e fino cone acústico de bronze posto para fazer alcançar a voz do falante aos que estivessem mais afastados.
A espera fez formigar a extremidade ferida, e foi exatamente enquanto se abaixava para se coçar que a voz trovejada captou sua atenção.
Os três homenzinhos estavam postos junto ao aparelho, o que agora se vestia de negro era o centro da formação e então as vozes se emendaram no pronunciamento:
-Nós avisamos, e ainda tentam fugir!- O sincronismo das vozes, e o efeito que produziam como coro era dos mais impressionantes.
-A segurança da cidade depende da permanência de cada indivíduo e família neste lugar até que as chuvas nos aliviem; então, cada qual deve desempenhar seu ofício com presteza, paciência e esmero...
A multidão silenciara de todo, e até os movimentos desta pareciam suspensos pelo respeito e curiosidade.
-Cavadores de poços, construtores de barragens, reparadores de valas de irrigação; todos são responsáveis pela sobrevivência de todos e a partir de agora serão fiscalizados por uma comissão de inspetores de engenharia, e serão guardados pelo recentemente criado exército municipal!
A frase terminou com a entrada de uma outra multidão armada de lanças, escudos e espadas que se pôs diante do palanque.
-Estes, que se põe corajosamente diante de nossos olhos são os melhores de vossos filhos, e eles foram reservados para guardar a segurança de nosso povo de agora em diante.
-Vigiarão a noite, o dia, o trabalho, o ócio, e serão os guardadores dos limites da cidade!
-Ninguém passará por eles- As vozes moveram à um tom sorridente, tenso-, e como prova disto temos um exemplo de como nossa fiscalização é eficiente, e de como agiremos energicamente em caso de desrespeito à nossa sociedade!
Um outro pequeno grupo foi apontado pelos três homens, ao lado esquerdo, aos pés do madeiro.
-Niad... Quion... Chantira...-A boca se secou de todo, e Dreh tentou gritar seu protesto, mas logo um cabo de espada lhe quebrava o nariz.
-A família de Quion planejava abandonar nossa presença, então, graças ao nosso amado irmão Dalu; que nos denunciou que haviam oferecido e ofereciam suas terras à todos a quem encontrava fomos ter com ele e, interrogando ele e sua família descobrimos ser verdade o que nos foi dito!
-Desgraçado!-Gritava Dreh, enquanto mais um par de homens afastava com violência Sibal e o filho e se juntavam ao esforço de silenciá-lo-É este maldito que anda fazendo propostas de compra aos que querem partir... -Uma mão enorme lhe segurou os cabelos, outra tapou lhe a boca.
-Mostraremos nossa severidade e benignidade escolhendo um que pague a traição da família e exemplifique à eles e a todos para que nada disso ocorra novamente!
-Enforquem a pequena!
Outros fortes se movimentavam ostensivamente em meio à multidão, o aleijado continuava a gritaria e a família culpada era segura enquanto imploravam pela vida da filha.
A garotinha, como quem nada entendesse seguiu, mãos dadas ao carrasco até o alto da forca; a confusão e o medo a haviam lhe apagado os instintos.
O homem ajeitou o laço ao pescoço, ela ajeitava o vestido. Ela sorriu, sem saber por que... Foi um sorriso muito bonito, ao qual o homem retribuiu puxando a alavanca...

Continua...
Anderson Dias Cardoso.
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