segunda-feira, 18 de julho de 2011

El Diablo.

Jonah Hex
Cultivava uma penugem, que um dia se tornaria volumoso bigode, ensaiava carrancas assustadoras entre os de menor estatura, às vezes conseguindo intimidar alguns, e guardava metade dos centavos para uma arma, a outra aumentava a coleção de quadrinhos de faroeste.
Das figuras mitológicas das estórias poeirentas, uma o assustava e despertava admiração pela vida independente, ambição e, mormente pela crueldade com que operava e eliminava qualquer que se interpusesse às suas razões, e deste homem, de biografia mutilada só restava a temida alcunha: El Diablo.
Em épocas de divertimentos eletrônicos era zombado por seus gostos antiquados, e os mais velhos não levavam em consideração as ameaças de um potencial pistoleiro, e ele era a criança estranha e mal humorada esperando seus dezoito anos para conquistar seu respeito e fazer tremer seus galhofeiros.
Ressuscitaria para si o tenebroso apelido, e com a certeza de que algum dia vivera aquele homem seria a continuação da violência e brutalidade, se resguardando da confiança que uma vez assaltou o predecessor, e que foi sua ruína, em uma bala pelas costas.
Na formação da sua identidade hostil resolveu-se por espancar algumas crianças vizinhas, e apedrejou dezenas de gatos e cães para aprimorar a mira, e se deu por satisfeito por escaparem somente por alguma intervenção.
Os vizinhos começaram a lhe apontar como garoto problema.
O cinto cortou-lhe as coxas e nádegas, e ele ainda desafiava a mãe com um silêncio e um olhar firme, de homem digno que suporta sem choro as durezas da vida, e não reservou ódio algum àquela mulher franzina. Até os matadores tem um código de conduta.
Aumentadas as traquinagens, e o menino agora enfrentava a todos, e vez em quando alvejava alguém com pedra, ou ameaçava com um canivete.
 O pai assumiu a correção, mas a rebeldia foi além de surras e psicólogos.
Aos doze o chamavam como queria, e conseguia algum dinheiro com pequenos assaltos, muito respeito através do medo, e sua pistola ensaiava alguns tiros, porém não havia derramado sangue algum.
Vadiando em uma noite qualquer sentiu sede e fome, e correu atrás do casal velho e lhe apontou o cano à cara, gritando, xingando e pedindo a carteira; e o velho, confuso com a abordagem estranha se embaraçou em seus gestos senis e com dificuldade arrancou uma sacolinha com muitas moedas e poucas notas.
A mulher tentou impedir o furto, e o garoto lha acertou a boca com a coronha; praguejou e tomou o dinheiro e se foi para algum boteco.
Pediu um sanduíche de mortadela e um refrigerante, comia gostosamente quando o telefone lhe avisou da morte de seu pai.
O estômago devolveu a comida ao exterior, e a cabeça confusa o levou a caminhar se aparando em qualquer muro.
Não viu como chegou em casa.
A mãe disse que foi um assalto, que segundo testemunhas o pai não reagira e ainda assim tombou com seis tiros.
Uma batida nas circunvizinhanças localizou o criminoso jogando snooker e bebendo cerveja, ele não esboçou nenhuma reação ao ser preso, ou alguma expressão ao ser interrogado e quando a viatura passou pela casa da viúva, para oferecer o conforto de ver ao menos preso o assassino, o garoto o viu, e aterrorizado correu para rasgar suas revistas, e se desfazer de sua arma.
Seu ídolo o veio visitar da maneira mais dolorosa! 

 Anderson Dias Cardoso.
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