domingo, 1 de maio de 2011

Uns Cânceres...


Hoje vi um câncer passeando num carro do ano, ao lado de seu pai!
Trajava camisa xadrez azul, e a cabeça luzia falta de fios...
 Era jovem câncer; talvez uns 11 anos; não pude ver seu rosto, mas não ignorei sua magreza!
Nada diferente dos demais; usava como todos a etiqueta de prazo de validade e todas previsíveis expectativas de um futuro breve!
Já conheci outros destes, uns já me foram até aparentados:
Uma Avó-Câncer e um Tio-Câncer... Houve ainda uma Vizinha-Câncer e outros conhecidos e ainda hoje eles parecem se multiplicar através de falhas genéticas, ingestão hormonal, e outros aditivos químicos e banhos solares!
São replicados como nosso legado científico, nossa produção econômica de morte!
Um desses horrores se deitou na minha cama! O Tio-Câncer outra vez citado, e eu quase sempre me negava a visitar meu próprio quarto, pois a morte assediava seu corpo esquelético, e o embebia de tanta dor que seu sofrimento era o bastante para nós dois!
Meu Tio-Monstro se negava a higiene, à comida, e se satisfazia num sono convulsionado que furtava consciência  às suas torturas, e quando despertado, choramingava tal qual uma criança febril, querendo desfazer  se novamente naquele modesto sossego!
A cova recebeu seu corpo e os vermes não tiveram muito com que se regalar!
A dor que deixou de sentir nos serviu de consolo, e a multidão dos chorosos se dispersou para reassumir suas vidas, e bloquearam de suas mentes a tristeza daquela patologia, fingindo que o pobre homem morrera de um outro mal!
O tabu persistiu, enquanto o mesmo mal era, e é fabricado e consumido em silêncio...
Enquanto outros corpos geravam seus próprios inimigos com ajuda de estruturas sintéticas e anormais produtoras de fartura...
Enquanto a economia se movimenta em favor da morte em detrimento à vida!

Anderson Dias Cardoso.
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