domingo, 29 de maio de 2011

A Pitonista.


Chegou à cidadezinha de nova Delfos, local de peregrinação mística próxima à grande São Paulo e ajeitando seus petrechos em um hotel econômico rumou animada ao monte Parnaso para obter algumas respostas.
Multidões se avolumavam fora da caverna, protestando descontentes com algo que só a proximidade esclareceria.
Se acotovelou aos que vinham em sentido oposto, atropelou alguns revoltosos e inquiriu recebendo como respostas xingamentos e empurrões, mas os metros de esforço posteriores a fizeram alcançar uma clareira e avistar o pequeno grupo sacerdotal que parecia explicar toda a situação.
O coração era um batuque só, e o passo foi célere ao encontro da resolução de seu tormento.
-Preciso de uma consulta!
-Infelizmente ninguém será atendido hoje!
-Como pode ser isso!? Seria hoje um dia nefasto não declarado nos calendários místicos?
A moça de pés descalços e ricos ornamentos depôs o véu e se adiantou ao grupo de sacerdotes se desculpando:
-Terceirizamos o serviço de emanações inebriantes e parece que houve algum problema nos encanamentos e hoje infelizmente não nos chegou nem um “vaporzinho” para que realizássemos nosso trabalho!
-Não pode ser!!!Eu vim de tão longe!!!
-Sentimos muito!-Todos concordaram com um triste meneio de cabeça.
-Preciso voltar amanhã!Tenho um emprego à espera, meu seguro está no fim... É uma ótima oportunidade mas esse problema afetivo tem me tirado a paz, e eu preciso de uma resposta!
Por favor!Eu ouvi falar que ninguém sai daqui sem resposta!Por favor, tentem mesmo sem o “Vapor de Píton”!
Eles se entreolharam, e com pena assentiram e a convidaram-na à caverna.
Os olhos já habituados à falta de luminosidade logo viram a simplicidade daquele templo, cujo luxo se consistia em luminárias incandescentes e um trípode posto sob uma fenda fabricada para se assemelhar a uma rachadura natural.
A pitonisa sentou-se elegantemente sobre o banquinho enquanto os sacerdotes formavam um semicírculo que esperava pelas frases desconexas para cumprirem sua parte no ofício.
De estática a mulher passou a apresentar discretos movimentos labiais, as mãos pressionaram as unhas vermelhas no estofado, e as comprimiram mais e mais até se lascarem, e o corpo começou a responder a impulsos invisíveis e convulsionou espumando a boca e revirando os olhos em suas órbitas. Ela se desprendeu do banco e tombou no chão nu, sussurrando frases rápidas e quase inaudíveis.
A garota ficou horrorizada! O corpo de intérpretes se aproximou para encerrar o expediente e se concentraram em ouvir bem para compreender.
-Quanto ao teu relacionamento, eis o que diz a pitonista:
"A grande borboleta
Leve numa asa a lua
E o sol na outra
E entre as duas a seta
A grande borboleta
Seja completa-
Mente solta... Ou não."
A garota tentou absorver a mensagem, e logo sorriu de contentamento, e se voltou grata aos seus bem feitores:
-Me sinto tão emocionada!Então são essas as palavras do sábio Apolo!
-Para ser sincero é Caetano Veloso!
Depois desse episódio a incompetência humana e o sincretismo cultural-religioso mataram muitos outros cultos!

Anderson Dias Cardoso.
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