quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ralôuin.


Em Marisco, aquela pobre cidade, uma personalidade foi recebida e assim considerada simplesmente por sua vinda do exterior.  E era moda da hora se referir ao tal “Mister” e ter algo a se dizer deste e seus agregados.
Pouco tempo instalados e as mercearias lhes ofereciam uma conta, as pessoas ofereciam sua amizade, e mulheres esperançosas de uma boa vida se ofereciam para dar cabo ao seu casamento.
No fascínio pelo novo o idioma local parecia dar lugar a um estrangeirismo, e muitas línguas tentavam uma pronúncia razoável, outras abusavam de umas poucas palavras conhecidas e executadas fielmente, num caminho inverso à Policarpo Quaresma...
Por sua vez a família americana seguia sua vida, meio alienada, meio indiferente às bajulações, preocupando se quase somente em manter-se nos costumes de sua terra; costumes que mesmo discretos lhes faziam atração a quase todos os curiosos.
As comemorações iam se seguindo, do Ano Novo à Independência, e o calendário alcançou 31 de outubro. Fantasias foram vestidas, as abóboras iluminadas colocadas ao redor do sobrado e as crianças foram lançadas nas ruas poeirentas sob as recomendações de cautela, e um celular posto no bolso para possíveis emergências.
A família de Cirilo após uma panelada deliciosa conversava e suava, tanto pelo prato quente  quanto pelo barraco abafado e compartilhavam anedotas recentes e riam alto,  animados, enquanto mãos pequenas lá fora  batiam em outras portas e recebiam sorrisos sinceros ou não.
 Os de Cirilo estavam felizes em sua volta de sua empreita em Brasília a respeito de viagens interplanetárias.
A cidade havia se preparado para uma festividade a qual nem era sua, e as balas e doces foram depositadas nas cestinhas sob a meiga ameaça: Tricks or Treats! (o significado havia sido garimpado em dicionários, ou aprendido de filmes) E um sorriso tentando simular perversidade!
Cirilo contava a de um cangaceiro; se engasgava com o riso e todos o acompanhavam com lágrimas nos olhos.
As cestinhas estavam cheias e cobertas por um pano branco que escondia a deliciosa fartura; as seguravam com ambas as mãos!Um prodígio para uma região tão pobre.
Miriã esquentava o leite no fogão de lenha, e o calor aumentava ainda mais, e ao tormento respondiam com mais humor!
Das casas visíveis no perímetro permitido uma quase se assemelhava ao espírito de terror requerido pela ocasião, e entusiasmados os irmãos se apressaram para talvez conhecer uma bruxa ou figura mitológica que vivesse por lá. Machucaram a porta com violentos socos, interrompendo a rotina da família  e cortando as falas ainda na garganta.
Cirilo levantou-se de sobressalto tentando imaginar qual dos vizinhos vinha os saudar, e abriu a porta com um sorriso satisfeito para então ver aquelas duas criaturinhas muito brancas, com cestas nas mãos. Eles responderam ao sorriso que não era para eles com um outro mais bonito, e mais completo de dentes:
- Tricks or Treats!
-Cirilo procurou manter o sorriso nos lábios, apesar de não entender bem o que acontecia; fez um gesto de espera para o pequeno casal vestidos de Lady Gaga e Prince e deixando entreaberta a porta sumiu dentro da casinha para voltar com um litro de óleo, o qual depositou numa das cestas e beijando a ambos os despediu meio abruptamente com uma batida de porta.
-Quem era Cirilo?- Indagou Miriã.
-Um daqueles meninos pedindo coisas pra a escolinha... tavam vestindo umas ropas muito esquisitas...
-É... esse mundo tá ficando cada veiz mais pior!
-Tô cum saudade de Sírius!
-Eu também!

Anderson Dias Cardoso. 
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