segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Coletivo No Coletivo.

Se arrastava com toda a lentidão de monstro pesado, e ponto a ponto devorava um e outro,
e no seu ventre tudo se arranjava com muito aperto.A catraca registrava milhares, o
estômago uma centena, e todas vozes tentavam comover o duro coração de motorista, mas
este abria a porta sempre que solicitado e amontoava ainda outros tantos passageiros!
O calor se multiplicou, e a pressão intraveicular quase rompeu as leis da física, e
próximo ao próximo ponto houve um grito de basta, o sorriso do motorista, e o olhar
indiferente do cobrador e mais uma alma acresceu a conta, e agora sim as tais leis
naufragaram no mar de corpos!O impensável ocorre, e os corpos juntos se tornam um,
amalgamados numa massa tosca; um novo organismo!
A empresa, ameaçada por entes furibundos, e transeuntes oportunistas se apressou a dar
solução e com todo um maquinário rompeu as estruturas do carro, e de lá escapou a grande
forma, confusa e enlouquecida, aquele hecatônquiro que agora tentava clamar por justiça,
mas milhares de sons não se fizeram entender!
Sob a tutela da lei, e isolados em um galpão improvisado a criatura tornava simpática
toda ligação fisiológica, principalmente neural, e o organismo se constituiu num grande
cérebro, e sua razão pediu por um advogado.
Nos tribunais vigorosas discussões, e a defesa da empresa levantou questões como o
reconhecimento daquele organismo como um cidadão, já que agora era espécime nova,
coletiva!Pesquisaram os reais passageiros daquela viagem, e constataram um ou dois
transgressores, e quiseram imputar suas culpas a todo o novo corpo, mas a estratégia foi
mal vista, interpretada como maldosa; então tentaram um censo das "supostas vítimas",
alegando não terem encontrado vestígios de todos os declarados, mas um exame de Dna
mapeou cada vida, e confirmou a verdade da catástrofe!
No decorrer do processo alguns dos integrantes do ser (agora chamado de Uno) desejaram se
emancipar; seduzidos por insinuações de subornos; visando um motim daquele corpo.
O canto do dinheiro corrompeu uma dúzia, e uma vez separados olharam saudosos seu breve
passado, e a falta e a saudade instalados levaram todos a depressão...Um em cada
apartamento solitário deram cabo à sua vida.
A comoção de mais essa tragédia comoveu, e a resposta do processo lhe foi favorável. Como
uma colônia humana resolveu se deslocar para longe daquela sociedade que, pela surpresa
lhes era solidária, mas uma vez acostumada lhe fariam objeto de ódio e preconceito.
O dinheiro da indenização lhe garantiu um espaçoso lar, e o suprimento vitalício de suas
necessidades, e uma vez lá instalado redigiu um livro baseado em sua vida comunitária,
e com o tempo o grande corpo se convulsionou e lançou de si uma criatura à imagem e
semelhança de si, e logo ao nascer já falava e se juntou ao esforço de Uno em
construir um novo mundo, uma nova sociedade coletivista.
A casa se transformou em aldeia, e aldeia em cidade, e essa foi elevada à potência de metrópole!
Desenvolvida, rica e igualitária; era a imagem ideal de sociedade, e os "homens sós" (designação pela qual
nomeavam os bípedes) começaram a afluir para aquela comunidade...
O jornal do dia gritava em enormes palavras em negrito que os "Unos" devoravam seus
filhos, eram sacrílegos, promíscuos e então o governo, com uma legislação discriminatória
desconsiderou a classificação "humana" daqueles seres, ordenou a esterilização de todos,
e por fim obrigou a separação dos corpos visando a reintegração à sociedade tradicional.
Muitas cirurgias foram mal sucedidas, muitas tristezas foram fatais, e o preconceito
gerado pelos jornais exterminaram os últimos espécimes, e por fim a sociedade
individualista ressurgiu ainda mais forte!

Anderson Dias Cardoso. 
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