terça-feira, 8 de julho de 2014

A Firma.



No contrato exigiam que não mantivéssemos qualquer tipo de contato além do estritamente necessário. Toques, olhares, palavras, sorrisos; todos regulados detalhadamente, inter e extra muros, por algumas centenas de linhas , a promessa de um cheque gordo e a ameaças implícitas de acontecimentos catastróficos em caso de descumprimento.
O prédio era bem bonito, dispunha de oito andares divididos em pequenas estações com portas sanfonadas, cujo conteúdo só o trabalhador que a ocupava conhecia. No meu caso, havia uma mesa, computador que periodicamente apresentava instruções de montagem, um conjunto de peças plásticas delicadíssimas as quais não era raro se partirem com o manuseio, uma caixa separadora com dezenas de espaços para o produto concluído, e um som ambiente que alternava entre músicas agitadas e calmas.
Periodicamente aparecia-me um funcionário de jaleco branco, crachá com um nome fictício (sabia disto pois o meu dizia José, mas minha certidão não concordava com isto!), uma prancheta, um par de canetas (vermelha e preta) penduradas no bolso, e usadas em ocasiões que não me deixava deduzir nada!
Quando soava a hora do intervalo as pessoas se encontravam nos corredores estreitos, silenciosas, vagarosas e cabeças meio baixas para evitar o toque. Havia uma fila para apanhar sanduíches ao gosto, refrigerantes ou sucos, e sobremesas variadas.O ambiente era muito limpo, e quanto ao sabor, duvido que alguém reclamasse.Segundo o ritual daquele espaço de tempo a maioria se encaminhava ao banheiro, onde as latrinas continham uma fita que acusava uma cor de acordo com as fezes do dia, e que voltava paulatinamente ao branco depois de cada descarga.
O bebedouro era uma outra parada obrigatória, e sua água parecia apresentar um gosto levemente diferente das costumeiras águas minerais do mercado, e uma vez ingeridas, pareciam hidratar e saciar muito bem o corpo, além de estranhamente me sentir um pouco mais eufórico e desperto depois de um copo ou dois daquele líquido!
Já de volta ao meu cubículo o serviço seguia monótono, porém interessante, raramente me trocavam as peças, ou surgia algum “supervisor” com cara de desagrado. O computador não me oferecia internet, e passou a piscar em vermelho quando tentei acessar este, ou outro link. Às vezes jurava ter ouvido cochichos nos corredores, se bem que em certa ocasião o barulho me pareceu entrecortado e repetitivo... Desconfio ser uma gravação!Será que há câmeras aqui na minha estação?
Hoje verifiquei meu contracheque. Haviam aumentado muito meu ordenado, sem qualquer motivo, mas, como o recomendado desde o início, achei melhor não questionar nada, mas quando cheguei em minha sala haviam retirado a mesa e o computador, e substituindo as caixas com peças estranhas por palitos coloridos com um cheiro adocicadamente forte e enjoativo!Ao menos me colocaram um tapete e uma almofada encardida onde me sentar... Não estou gostando nada disto!
Os cochichos nos corredores são perturbadores!Às vezes acho que escuto uma gargalhada entrecortada, mas a sala parece ter sido construída de modo a não apresentar nenhuma fresta para que eu possa verificar. Nos intervalos, quando ouso erguer um pouco a cabeça, as pessoas ainda parecem tão desconhecidas e impessoais quanto sempre!
Parece que recentemente mudaram o fornecedor de água. Esta está mais densa, com um sabor meio amargoso, e que tenho a impressão de me deixar  sonolento.Ultimamente tenho sofrido um leve formigamento nas pontas dos dedos, e meus cabelos parecem ter se tornado um pouquinho mais oleosos; mas eu não menciono isso à ninguém!O contrato não permite!Aliás, estas novas clausulas, estimuladas por outro aumento convincente (quem hoje em dia ganha tanto pra executar trabalhos tão simples quanto estes?), nos obriga a disfarçar nosso itinerário através de taxis previamente remunerados pela empresa, os quais nos buscam em pontos de ônibus aleatórios, indicados por um SMS enviado antes do expediente; a proibição de qualquer comentário à respeito de onde, e com que se trabalha, inclusive a intenção de pesquisa dos próprios funcionários passariam a ser verificadas por um algoritmo que listava as palavras –chave em todos os níveis da rede, identificava seu IP, deduzia seus contatos, e finalmente, decifrava o autor!Não sei se isso é realmente possível, mas temo que estejam nos vigiando de alguma forma!Às vezes me sinto observado nos lugares mais improváveis!Já ouvi falar de drones, satélites, escutas; mas o que tenho medo mesmo é do ser humano!Ando vendo algumas sombras, ouvindo alguns ruídos... Tenho sonhos estranhos!
Esta semana outro aumento. Entregaram em casa um terno de tecido caro para cada dia da semana.O corte me pareceu sob medida à despeito de eu não ter oferecido informações do tipo a ninguém, e, curiosamente, quando cheguei em minha sala haviam retirado o tapete e a almofada.Fiquei em pé por horas, não queria me sujar naquela poeira fina do ambiente, mas depois das cãibras me resignei!Naqueles dias o tempo passou mais devagar. Eu consultava o relógio de minuto à minuto, esperava alguém me trazer o que fazer, ou me fiscalizar de alguma forma, mas nada acontecia!Vencia meu tempo, eu batia o ponto e deixava o local por um caminho maluco, e chegava exausto de tensão em casa!
Como poderia comentar indiretamente o que acontecia comigo?As pessoas dizem que o dinheiro é chamariz de interesseiros, mas tenho me tornado um “bem sucedido” tão excêntrico que todos se afastaram por meu silêncio, e por medo de serem envolvidos em alguma coisa que não acabe bem! Psicólogos oferecem sigilo profissional, mas eu desconfio de todo mundo!
Outro dia e agora parece que o número de salas foi diminuído pela metade; isto é, se fundiram de duas em duas, e as estruturas foram modificadas para acolher uma porta grossa de madeira, uma mesa, e dois blocos de notas, com suas respectivas canetas!Aquilo parecia alguma pegadinha, então decidi manter a mesma postura “profissional”, a qual foi imitada pelo parceiro de sala. Evitávamo-nos no que era possível.Quando um se sentava à mesa, o outro se encolhia no canto, rosto virado para a porta, e algum gesto que demonstrasse inquietação.Eu manuseei o bloco e a caneta algumas vezes.A testei na palma da mão, mas não ousei nada no papel.Meu companheiro a folheou, arrancou uma ou duas páginas e dobrou barquinhos.Vez em quando algum dos dois assoviava uma música, mas o outro ficava a se policiar para não repetir o ato, e demonstrar alguma simpatia, continuidade, ou empatia!No intervalo nos alternávamos meio que inconscientemente, quinze e quinze minutos.
Um mês depois e estou sozinho novamente. O salário recebeu novo acréscimo, e a sala foi duplicada, me presentearam com uma poltrona aveludada vermelha, a qual tinha seu local de permanência marcado no chão, algumas plantas artificiais enfeitavam o local(as samambaias particularmente eram incrivelmente convincentes), e o som ambiente fora substituído por  sons naturais!As conversações simuladas agora parecem distantes, e quase não vejo outros funcionários!O cardápio foi melhorado, e existem fichas individuais onde se pode escolher o tipo de culinária para cada dia da semana com um simples marcar de caneta; mas ainda assim estas tem um gosto um pouco diferente do que havia de ser. Não que esteja reclamando!São ainda melhores do que os mesmos pratos, consumidos em outros lugares; mas é que acho que a alimentação não deveria despertar sentimentos e impulsos que não os naturais, os quais venho lidando desde sempre!Devem nos temperar com algum tipo de hormônio... Isso às vezes me dá medo.
Gostaria de saber o que foi feito do meu companheiro de sala!Será que algum dia vamos nos encontrar?..Em algum tempo onde as restrições da empresa não façam mais sentido?
Às vezes penso em tirar férias. Esvaziar minha polpuda conta bancária e me mudar, sem deixar rastro, para algum lugar não convencional; ermo.Talvez eu devesse comprar uma pequena ilha.Mas quando penso em coisas como esta tenho a impressão que ainda continuo naquela sala, a boca saliva desejando aqueles sabores, a pele sofre um leve e cálido comichão, e os alto-falantes me insistem para ficar...


Anderson Dias Cardoso.
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