sábado, 22 de março de 2014

Êxodo Digital-Parte 2.


A sirene da escola nos coagia a voltar à sala de aula. Saímos da carcaça queimada do velho Chevrolet 78, atravessamos a imundice do pátio enquanto íamos discutindo a respeito de algumas questões engraçadas as quais vinham sendo apresentadas nos testes e exigidas nos relatórios semanais, que por sinal deviam ser respondidos também por toda a família, e que envolviam perguntas bem pessoais!
Mamãe mentia em boa parte deles por achar que isso feria nosso direito de privacidade, mas se dizia satisfeita com as melhorias acrescentadas na grade curricular, nessa tentativa de abrangência do aluno em todos ambientes aos quais faz parte, e a aquela celebrada novidade do acompanhamento psicossocial de toda criança, ao invés de apenas casos especiais.
Naquele dia as lições foram bem turbulentas, mesmo para um curioso garoto de onze anos; sendo que o som das brocas dos instaladores de câmeras e sensores emocionais forçava à gritaria a orientadora; o pó fino forrando o soalho, e pedaços de teto desabando sobre minha cabeça me fizeram saltar umas duas cadeiras e entabular uma conversa com o grupo de simpáticos dispersos da classe, desistindo assim das explicações sobre a obrigatoriedade dos novos aparelhos tomográficos em toda a população, e a pandemia de câncer que acompanhava aquela nova Revolução Industrial!
Abri uma caixinha de leite, ofereci à todos, e, ligando inconscientemente aqueles fragmentos didáticos da aula com uma observação de mais de uma vintena de cabeças nuas, (e alguns milhões extras de recentes tosados no mundo exterior) pela primeira vez notei que estávamos todos morrendo muito rápido.
Questionei-me se havia adoecido, fazia parte de uma tentativa de colaboração e solidariedade em esconder a desgraça alheia, ou era verdade todas aquelas baboseiras à respeito de piolhos. Perguntei a minha mãe, e ela ficou muito zangada!
Disse que era exatamente por isso que não me poderia me enviar para uma boa faculdade; pois gastavam grande parte do ordenado de ambos em alimentos, eletrônicos e qualquer coisa que constasse de um selo de indicação de que era livre de contaminações bacteriológicas, resíduos industriais e qualquer tipo de radiação nociva!Não, eu não estava doente, e ela assegurava isso me lembrando de quantos exames todos nós havíamos feito nesses últimos anos.
E eu acreditei nela... Ou acho.
Tempos depois e aquela velha novidade de digitalização de pessoas já começava a se popularizar, e alguns artistas encomendavam sua versão de mundo, se preparando para alguma eventualidade; além de surgirem, anunciados nas mídias, propostas de condomínios exclusivos inteiros para pessoas selecionadas, os quais estariam à disposição por alguns milhares de créditos, enquanto o governo, com seus problemas de saúde pública aumentando exponencialmente, procurava estatizar e organizar essa transição caótica e evitar a falência das transnacionais por conta de tantos processos. Ainda assim, o Estado Mundial carecia de lisura em se tratando de sua nova abrangência, já que parecia, aos olhos de todos, que os bens e produção estavam sendo desviados para algum fim escuso e não declarado!
Disseram que seria necessária a mudança do meio circulante, e que organizariam cooperativas de trabalho estatais para assimilar essa nova leva de desempregados, e deslocar para perto dos moradores seus postos de serviço a fim de diminuir gastos desnecessários com locomoção; o que protegeria ainda mais nossas reservas de combustíveis fósseis, que parecia minguar a cada ano!
A vida continuava sua mudança gradual para mim. Acho que pela plasticidade da juventude tudo se tornava meio normal logo que deixava de ser interessante nas conversas com os amigos, mas notava que minhas caminhadas para qualquer parte me cansavam um bocado, e os ossos latejavam por dentro da pele. Fora, o ambiente ameaçava com um céu se que mantinha fortemente acinzentados de poluição dias à fio.
Gostava de notar as pessoas vestindo engraçadas máscaras descartáveis por conta do chumbo das emissões dos automóveis, e que outros preferiam parodiar a situação com aquelas com filtros enormes, de desenho apocalíptico!
Outra coisa interessante era que os velórios deixaram de me incomodar pela perda, mas ainda me angustiavam pelo tédio de não sentir mais pena, e freqüência com as quais minha família era convidada.
Eram sempre figuras muito parecidas, todas calvas, esqueléticas, ulceradas, de veias expostas e olhos saltando das órbitas!O cheiro de flores me enjoava terrivelmente, então eu procurava fora as figuras mais animadas da vigília para escutar alguma anedota, ou corria atrás de algum petisco confiável, já que minha mãe não me deixava comer as mesmas porcarias próprias dos adolescentes, antes, continuava a burlar as entregas de ração e nos comprava comida saudável, por preços ainda mais exorbitantes!
Aos quinze a morte me deixou de ser coisa banal novamente; e eu me vi ali, comovido com as mesmas características impressas no corpo e face de meu pai, as quais costumava a debochar, e abraçava sentido a namoradinha também chorosa, só a abandonando-a quando insisti em segurar uma das alças do leve caixão, que agora era um padrão cedido pelas prefeituras para evitar aquelas conversas sentimentais de donos de funerárias, e assim transformar a morte num processo mais impessoal, ao tempo que fingiam compartilhar da dor e tomavam uma pequena parcela da responsabilidade sobre si, mantendo numa boa perspectiva quanto à opinião pública!Funcionava bem com os outros!Mas eu continuava amargurado e descia a ruazinha do cemitério tropeçando nas pedras soltas do pavimento e me lembrando que escavavam em algum lugar da América do Sul um berço para um Éden virtual baseado naqueles modelos prévios de doentes, prisioneiros, artistas e milionários!
A contaminação do solo, da águas, e ar vitimava agora mais pessoas do que o Governo gostaria, e ainda haviam menos faixas cultiváveis do que as necessárias, sendo assim sensato solucionar de alguma forma aquele morticínio!
Disseram que haveria uma resposta, e lugar para todos!
A TV dizia que aquela construção subterrânea fora executada em uma zona de baixo impacto sísmico, encapsulada por um leito rochoso, que foi convertido em uma abóbada reforçada por paredes impermeabilizantes, bloqueadores elétricos e geradores de vácuo. Sua localização era desconhecida, sendo alcançada por alguns túneis de manutenção com acessos restritos a membros das Organizações Mundiais, e seus técnicos, e tudo isso levava àquele bloco de oito quilômetros quadrados de tecnologia neuromórfica, com componentes de altíssima duração e seus ambientes inteligentes e adaptáveis, alimentados por bilhares de tentáculos de captação e conversão de hidrogênio.



Continua...
Anderson Dias Cardoso.
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