domingo, 1 de julho de 2012

O Corvo.

Gostava de papagaios, mas não de suas interpretações, então, operava ele mesmo o aparelho fonador dos animais para que fosse impossível o ruído de suas especialidades, e os espalhava aqui, e ali, enfeitando seus ambientes com a tristeza colorida dos animais mutilados.
O dinheiro lhe assegurava imunidade aos seus procederes, e, aos animais parrudos e bem tratados ninguém ousava contestar a bondade relativa do dono.
O homem já cogitara algumas vezes em operar também a mulher; grandessíssima falante, e aos dois filhos; um casalzinho de tagarelas interrogadores que às vezes lhe furtavam o sentido em meio a situações realmente importantes!
Em uma de suas festas natalícias foi presenteado com um corvo, sob o pretexto de que uma variação de espécies só favoreceria o ambiente!
-Este já me veio operado-Assegurou o bom amigo!
-Melhor que me poupa trabalho- Agradeceu comovido o aniversariante, já comprimindo o convidado com entusiasmo!
Ao findar da comemoração o homem visitou a gaiola para se divertir com o olhar astuto da ave.
A gaiola era espaçosa à um animal acostumado, e ele se ajoelhou diante da negrura da criatura agourenta e esperou qualquer reação.
A quietude da ave o perturbou por muitos momentos, e ele se manteve observando até que os curiosos perdessem o interesse pelo contato, e abandonassem, fartos e embriagados o evento.
O pássaro então se agitou e tentou imitar algum som, mas o órgão respondia com arranhos agônicos, e bater convulsionado de asas.
-Ahasssssssssssssssssssshhhhhhhhssssssssss!Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuggggggghhhhhhhhhh!
Um passo atrás, e o animal se esforçava para imprimir seu canto, mas o bico se abria e fechava ao ritmo das articulações enquanto sustinha o olhar trespassante ao proprietário.
-Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHGGG!
Ousou, projetando o pescoço e bicando o vento.
Aumentou o tom, mas o que saiu foi o sussurro gorgolejante, e o bico se tornou frenético, e a garganta se abriu com a força de seus esforços.
-IiiiiiiiiiHHHHHHHHHHHHHGGGGGG!AAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHSSSSSSSSs!AAAAAAAH!
As asas turbilhonavam, e a garganta se engasgava com o sangue do canto, e com o último sopro a tentativa de palavras o inteligível som cinzelou na mente do homem que o pássaro expirara dizendo seu nome!
Ninguém o tentou convencer do contrário; e dizem, hoje, que coleciona miniaturas de carros antigos   

Anderson Dias Cardoso.

4 comentários:

Vampira Dea disse...

O conto intrigante me instiga a dor que deve sentir os pássaros que cantam de tristeza http://www.youtube.com/watch?v=g2nbs-wPNmA
Boa semana...

Zélia Angel disse...

Ainda que o mutilador teve arrancada a trave do olho que lhe impedia de ver a dor que causava, enquanto que na realidade, há muitos "mutiladores de vozes" que dificilmente se regeneram. Gostei muito!

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo"-F.P- disse...

Núss, que agonia senti, e pensar que isso de fato acontece!

Célia disse...

Texto impressionante! Como sempre, fora de série!

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