domingo, 29 de julho de 2012

A Invenção Do Homo Patheticus.

Nos limites da vaidade toda plástica exterior, com suas harmonias forçadas ao extremo por intervenções cirúrgicas não foram suficientes às ânsias do espetáculo pessoal, tornando se assim os aperfeiçoamentos da beleza sócio-comercial radicalizados por toda sorte de visionários de uma nova engenharia estética!
 Foi quando geneticistas intervieram com mesclagens cromossômicas e evoluíram artificialmente a espécie para um ser parte translúcido, ao qual nomearam como Homo-Pellucidum, do qual a moda se incumbiu de adornar, rearranjar ao sabor da criatividade!
Inventaram cores para os movimentados fluídos corpóreos com corantes artificiais, alegrando a vulgaridade do sangue, saliva, compostos gástricos, e até mesmo as fezes com tons dourados, extravagantes violáceos, azuis da Prússia, ou qualquer cor que pudesse ser imaginada, e assim, sintetizada!
Engenheiros anatômicos se encarregavam em rearranjar os espaços dos interiores corporais, deslocando um pâncreas, dilatando um pouco os pulmões para diminuir as distancias entre os intestinos, eliminando, ou adicionando veias e artérias para equilibrar os ambientes internos, muito freqüentemente, de acordo com feng shui!
Além dos esforços para a correção das deficiências estéticas hereditárias ou congênitas estes profissionais se juntavam, ocasionalmente, à especialistas ortopedistas, oncologistas, dermatologistas, dentre outros; para minimizar, disfarçar, ou ao menos alegrar qualquer mazela cosmética que pudesse afetar a elegância do contratado!
Então, ossos eram esculpidos, suavizados, ou extraídos, tumores eram camuflados, tingidos, ou modelados; órgãos atrofiados, apêndices, ou peças orgânicas em condições visivelmente deterioradas eram recompostos, holograficamente melhorados, e, às vezes, recebiam iluminação em neon!
Nunca antes, as enfermidades possuíram tanta sofisticação!
Neurologistas e engenheiros eletrônicos instalavam diodos, placas de silício, displays, que exibiam as transcrições dos movimentos do pensamento; em crânios de carbono, acrílico e platina!
Com tanta exposição de si mesmo haviam associações entre disciplinas como psicologia, ioga, e até mesmo implante de aparelhagens de simulação de estados físico-mentais; para que, toda beleza do corpo pudesse ser vista, sem que se pudessem ser compreendidas as complexidades e segredos do espírito, que teimavam em se revelar através de suas taquicardias, irrigações sanguíneas abundantes, e dificuldades pulmonares!
As ruas então eram sempre iluminadas por criatura de pele de vidro; corpos que, por vezes, carregavam efeitos visuais, e até mesmo propagandas...
Era a personalização absoluta do ser; de acordo com os mais exigentes padrões do mercado!


Anderson Dias Cardoso.
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