domingo, 27 de novembro de 2011

Frágeis Existências 9°Capítulo.


O prato era pobre em carne, e de abóbora nem gostava muito, mas a fome deu boas vindas a cada bocado engolido.
A garotinha esperava; segurava um sorriso bonito e curioso enquanto o via mover vez em quando o coto.
-Dói?- Arriscou a pergunta e avançou para um toque, que ele repeliu com pouca gentileza.
-É muito recente, e seu pai me cuida com pahije, não a toque, pois ainda me causa desconforto e asco.
-Nós iremos embora na próxima lua- O sorriso se manteve a despeito da mudança de assunto- Papai disse que não poderemos levar o Lasef, e que logo que chegarmos a Raish me comprará um outro cachorrinho!
-Não gosto muito de cães, acho que devia pedir um coelho ao seu pai, eles são menos perigosos!- Achou engraçado seu próprio comentário e se juntou ao sorriso da garotinha.
-Eu odeio abóboras- o tom dramático e confessional foi associado à uma olhadela ao prato de Dreh; era uma demonstração de amizade em forma de segredo e ele mudou seu aspecto para conferir importância ao que concordava.
-Papai disse que as abóboras são para poupar dinheiro para as caravanas de alimentos nas estradas que vão para além das cinco cidades, ele disse que a comida fica muito cara na viagem...
-Me disseram que os preços das caravanas de travessia são dez vezes mais altos, e dos que fugiram das cidades, muitos se tornaram em assaltantes- A voz se acrescentou ao ambiente, pouco tensa e nervosa.
-Eu conversava com Banira, ela cresceu bastante e o sorriso brilha tão fresco que quase me esqueci da dor, e a propósito, ela detesta abóboras!
Um olhar de desaprovação da infanta não o fez corar, e ele continuou:
-Ela é mocinha inteligente e responsável, me cuidou direitinho quando esteve fora e acho que merece comer o que bem lhe apetecer!
Com a gargalhada de ambos a carranca da pequena se desfez; ela balançou afirmativamente a cabecinha cacheada, satisfeita com a defesa do novo amigo.
-Também acho que é moça feita e obediente; e merece repolho e batatas ao invés de abóbora!- Estendeu os braços queimados de sol para receber o corpo inquieto e o comprimiu ao ponto de fazer escapar um gemido divertido, ao pai de amor violento.
Quion arrancou do bolso uma boneca de palha e entregou para que a garotinha se afastasse e continuaram a conversa.
-A perna parece bem melhor e as crostas quase desapareceram. Eu tenho diminuído a concentração de pahije e pelo seu humor logo voltará a freqüentar lugares de má reputação!- Quion havia se debruçado sobre o resto de perna e levantou-se muito satisfeito.
- A botija d’água...
-Eu trouxe uma maior, cheia- Levantou-se para averiguar as traquinagens da filha e voltou com o recipiente e copo em mãos, despejou liquido até a metade e entregando ao enfermo foi sorvido em um gole só.
-Mais um pouco que o clima me secou até o tutano!- Bebeu o segundo mais calmamente e entregou o copo vazio para ser depositado ao chão.
-Gostaria de andar, a perna inteira já não me responde bem quando a ordeno e acabo de ter a impressão que logo terá que me contratar novamente o cirurgião para me amputar  a segunda por falta de uso!
Eles riram muito, mas a perna não susteve o peso e Dreh teve que ser carregado ao exterior do casebre.
-Nada de nuvens!
-Os poços de auxílio estão sendo escavados, mas não encontram nada acima de trinta braças, falei com Ohik; ele trabalha chefiando uma dessas equipes e me garantiu o empregar como assentador de pedras de calçamento ao redor dos mesmos...
-Não sei bem se quero trabalhar... Uma perna faltando me justifica bem como pedinte!
-Seu carisma o faria morrer de fome!
-Você fala com certeza de minha sinceridade!
-Como queira!
-Sendo assim- Dreh ergueu o queixo orgulhoso e fitou com desafio os olhos divertidos do amigo- Também te digo que, assim como Banira, estremeço a cada bocado da sua abóbora!
-Tudo bem, mas nada direi à Chantira; ela já o odeia o suficiente e você ainda não conseguiria lhe escapar quando lhe desforrasse com a mó do moinho!
-É um segredo que espero que guarde até que parta; sempre julguei que mesmo inteiro nunca seria páreo para aqueles braços fortes!
-O barulho de Banira silenciou- a voz soou como uma desculpa ao fim do dia, e ao entrar naquele espaço encontrou a cria recolhida ao canto mais quente, boneca pendendo dos dedos.
-As luzes se apagam mais cedo, azeite e gordura foram racionados e já ouvi histórias de violências e assaltos - Ergueu o pequeno corpo e com uns poucos passos já estava de volta ao exterior do casebre- Amanhã lhe prometo um desjejum que lhe compense a péssima refeição!
-Não... Não foi uma péssima refeição meu amigo, e...Cuidado com os cães...
-Boa noite, Dreh!
-Boa noite, Quion!

Continua...

Anderson Dias Cardoso.
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