domingo, 9 de outubro de 2011

Jóqueis de Gigantes.

A mão de dedos gordos mediu em palmos o couro de pônei, o aparou na forma aproximada e a deitou sobre sua tábua de descarnar. Apanhou o cutelo de duas mãos e pôs se a lasquear a superfície peluda deixando a pele malhada lisa como pedia o trabalho.
Preparou a armação e a cobriu com a peça ainda úmida, cortou abas de sola, e o assento de estopa colada ao couro cozido e os juntaram todos ao suador costurado com linha bem resistente e o que se formou foi um belo arreio envernizado.
Seu dono já o esperava para a prova, sua expectativa se viu satisfeita e as moedas mudaram de mãos alegremente.
Somed cruzou o pátio sorrindo e apresentando a peça às filhas, mas não se deteve em comentários ou elogios; queria vesti-la nos lombos de Burei!
-Onde está você?- Pela inflexão da voz já podia se saber o que desejava e o rapaz logo se aproximou despindo a blusa pesada e se encurvou para receber baixeiro e sela.
-Olha como o látego e as barrigueiras são excelentes! Dão um arrocho perfeito!-O gigante se voltou à ver o que se passava sobre suas costas e sorriu satisfeito com o presente tão bonito.
Somed pisou o estribo e passou uma das pernas sobre anca preparada , segurou no punho do colar com muita posse e ao dizer: Vamos! A mulherada da casa sorriu e bateu muitas palmas.
Andaram por hora e meia nos lugares mais acidentados da propriedade, vez por outra parando e hidratando o homem sob suas cochas com o cantil que carregava ao lado.
Batia-lhe nos ombros dolorosamente, ou nos braços e cabeça quando teimava um caminho não indicado.
-São às vezes bestas mais imbecis do que qualquer eqüino!-Dizia sempre aos que participavam de seus gostos.
-És muito estúpido Burei; mas sua resistência e força me farão ganhar a “Corrida dos Gigantes” muito facilmente! Voltemos para que Balid possa o alimentar, e então repouse uma ou duas horas antes de continuar seu serviço!
O monstro de quase 1,80 de estatura inclinou a cabeça em satisfação, e logo arriscou um agradecimento:
-Ooo-Biaaadu!
Somed sorriu de satisfação ao notar ser possível resgatar o dinheiro de seu investimento tão cedo!
Das fazendas de gigantes saíam as mais admiráveis crias, melhoradas através de alimentação adequada às matrizes, seleção de espécies mais robustas e resistentes, e parteiras que soubessem calcular bem o momento de deixar que o filhote respire, para que o dano cerebral não o incapacite além das faculdades intelectuais desnecessárias, e com tais prejuízos calculados podiam desempenhar atividades além de sua função de corredor.
As matrizes haviam sido obtidas dos povos do sul, selecionadas pelos quadris largos de boas parideiras, pelos seios poderosos no aleitamento, e fertilidade sobrecomum.
Os reprodutores vinham dos povos gigantes e deles se pediam que tivessem um padrão médio de 1,77 metros (alguns diziam ser exagerado dimensões tão imensas e apostavam nos grandes de 1,65 metros como suficientes à uma carga de geralmente 70 ou oitenta centímetros e 25 quilos), pernas e colunas resistentes.
Todo este processo era dispendioso, pois empregava instalações com adaptações para estes tipos de animais muito custosas, cuidadores, parteiras, adestradores; e as dificuldades em se acertar o tempo ideal para o “fôlego” levavam a produção à uma escala pequena e perdas consideráveis, onde por ano nasciam pouco mais de 1.030 gigantes, dos quais 1% tinha o dano neurológico e compleições físicas ideais.
 Estes eram vencedores;  vencedores caríssimos!
No dia da “Lua gigante” Somed calçou as luvas de pele de castor, olhou para as mãos e concordou consigo mesmo de que haviam ficado perfeitas, mirou-se no espelho de cobre para acertar o resto da indumentária de cavalgada, subiu a calça e arrochou um pouco mais o cinto; passou as mãos pela camisa e aplanou as rugas, se dando por muito satisfeito.
Pela janela as moças se riam dos calções curtos e cabelos emaranhados de Burei. Seu corpo forte se virou e elas apontaram simultaneamente a marcação de posse de seu pai no flanco direito. Era a figura de um homem alado do qual o pai destas havia jurado ter lhe aparecido em sua juventude e dito que fosse gentil com seus irmãos.
Haviam ainda as marcas de rasgos feitos provavelmente por armações que haviam vazado os suadores, estas chegavam a comover algumas das donzelas.
A corrida daquele ano seria na floresta de Podag ao caminho de três dias, então o pai gritou que apanhassem logo o que lhes era necessário e tomou ele mesmo seu alforje preparado, e partiram.
Somed e sua família foram na carroça principal, seguido por Balid, seu mordomo e Sihaf seu filho e a última delas levavam forragem para os jumentos e Burei.
Vencido o caminho procuraram lugar para se estabelecerem naquela cidade de tendas, e não achando nada melhor montaram acampamento próximo ao brejo de Anv.
Somed sorriu novamente, era um homem alegre e sua vitória com certeza seria o melhor consolo, e sua posição geográfica em lugar inferior ainda serviria pra dar maior valor ao feito.
À noite, quando foram acesas as fogueiras cada clã deitavam suas carnes ao fogo e ofertavam pedaços fartos em demonstração de amizade, e se confraternizavam desejando lhes uma boa corrida uns aos outros e dançavam como um único povo.
Somed comeu o necessário, dançou muito pouco e se retirou para descansar bem cedo; eles que se empanturrassem, embriagassem e se cansassem sozinhos, ele havia vindo pela competição e as muitas peças que lhe acresceriam a fortuna.
Pela manhã os competidores se arranjavam atrás da linha rubra, uns pareciam bem, outros nem tanto e até algumas montarias receberam golfadas de vômito quente às costas e à outros a desistência desonrosa veio através de disenterias.
A floresta densa se erguia com uma falta de iluminação e obstáculos naturais que tornariam a corrida bem desagradável e perigosa; haviam charcos, insetos e alimárias intimidadoras, e era esta dificuldade e a falta de trilhas ou caminhos artificiais o fator decisivo da escolha do lugar.
O sol castigava tanto montador quanto montaria, e filetes de suor escorriam do dorso de todos, e os gigantes se agitavam sob as selas e eram acalmados por palavras de afeto e chicotes curtos. O astro então lançou seus raios mais fortes e os homens e suas bestas se moveram rápidos para o caos verde.
Mulheres e crianças gritavam em apoio ao seu favorito, apostadores faziam seus cálculos e outros espectadores assistiram o suficiente e se foram para aprontar sua partida para o outro lado da floresta.
Os primeiros metros vencidos pareceram mais fáceis do que presumia, mas já não avistava qualquer competidor; cada qual havia escolhido seu caminho por critérios de inclinação do solo, densidade de vegetação, claridade, etc.; e Somed observou o desempenho do gigante por um tempo de intervalo de hidratação ainda maior do que o costumeiro e notou que apesar da força da criatura seus lábios haviam se secado e ele o ouvia ofegar um pouco mais alto.
Desmontou-o e lhe ofereceu água; não deixou que bebesse muito para que não tivessem que parar para urinar. Estivesse chovendo diria que se aliviasse em seus calções mesmo, mas num tempo seco logo a uréia lhe irritaria a virilha.
A água o fizera muito bem e Burei corria mais disposto saltando troncos e abrindo caminho na folhagem com as mãos inquietas e virando se a cada tempo ouvia direção que deviam tomar.
 Escurecera muito naquele trecho, e vendo um terreno úmido deduziu que se transformaria em alguns metros num pântano, então puxou o punho do colar para a esquerda e quis rumar para o seco, mas Burei se recusou.
Forçou lhe o pescoço até que o viu estalar, e o moço balbuciava:
-Páaaaaaa-láaaaaaa, ai nãuuuuuum, páaaaaaaa láaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
-Falta-me que tenha que descer de suas costas e assuma seu lugar para que rume para onde deseja!Você, não eu é a besta, então me obedeça!- Açoitou-o com o cabo do chicote e viu escorrer um largo filete de sangue próximo à têmpora.
-Juro que após a corrida, vencendo ou não eu lançarei aos cães!-Bateu novamente onde havia o ferido e venceu sua resistência.
Burei correu ainda mais depressa, Somed se deu por satisfeito pela velocidade e obediência e fixava bem os olhos para tentar vencer as trevas, e nos lugares mais densos inclinava um pouco a cabeça e percebia uma luz aqui, ou ali e ao gritar: Esquerda verme! Uma ponta de galho alto lhe feriu o lado e ele com o sangue vertendo sem controle pelo rasgo e o corpo miúdo rompeu gravetos e folhagens no solo.
O rebuliço e a leveza de suas costas levaram Burei ao susto, e voltando se para encontrar seu cavalgador e apalpando os espaços encontrou a viscosidade que o levou ao corpo.
Mexeu-o como podia, gritou, mas a resposta única foi a respiração alta e uma umidade crescente do flanco.
-Mooooooooooorrrrrrrrrrrrrrrrrreeeeeeeeeeeeee, morrrrrrrrrrrrreeee naaaaaauuuuuuuummmmmmm. -Repetiu a construção até que notou que a fórmula não ergueu o homem, então tomou o cantil e o tateou-lhe a boca, forçou o gole, e despejou o resto no lugar do sangue.
Despiu seu aparato e tomou seu senhor nos braços e seguiu o sentido contrário correndo com toda a força de suas pernas até a terra molhada e então seguiu o caminho em que teimara.
A vegetação parecia se lançar contra o corpo  as correias da sandália se partiram e a boca era só secura.
Os cinco tempos do caminho estimados se encolheram em três, e na pouca luz que enfrentava a mata viu o contorno dos apostadores que conferiam a chegada para impedir trapaças.
Avançou até que se fez visto de todos os que aguardavam, correu os olhos para achar quem recolhesse o enfermo, mas desfaleceu sem encontrar rosto familiar.
Os parentes acabaram por encontrar os dois corpos, e prantearam nos como iguais ao lhes serem narrados os esforços de Burei, que morrera de exaustão carregando um corpo que se esvaziara de sua alma minutos depois do impacto.
-Morreu como um homem!-Foi o que disseram todos, e lhe sepultaram como homem; e logo se perguntavam qual seria a fórmula para se construir montarias tão dedicadas!

Anderson Dias Cardoso.
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...