domingo, 10 de julho de 2011

Ovelhas e Lobos.

Ofereceu as mãos em solidariedade, porém ela as negou, e os olhos de maquiagem destruída por lágrimas eram hostis ao que lhe fazia o bem.
-Quem disse que quero ajuda?
-Você chorava.
-Minhas lágrimas dizem respeito a mim somente.
-Desabafar geralmente ajuda.
-A simpatia masculina à qualquer dor significa uma única coisa: Sexo.
-Aceite minha mão assim com aceito seus insultos, sem análises ou esperanças.
E ela, desaforada que era levantou-se por si e se adiantou, o deixando vários passos atrás.
-Espere!
-Me deixe que sou bicho sozinho e sei lidar com meus ferimentos.
-E eu sou moço direito e se quiser apresento referência!-O sorriso deixou escapar um pouco de cinismo, e a tensão só fez aumentar.
-Não acredito em bondade humana... Principalmente a de desconhecidos. Se não notou meu corpo é magro, meus cabelos são ressecados e essa maquiagem desfeita esconde olheiras quase tão negras quanto a pintura que se desfaz...
-Se se vê assim tão sem atrativos por que temer as investidas que acredita que lhe dou. Aceite ao menos um café amargo e me deixe desfazer estas suas impressões...
-Realmente não acredito na sinceridade de sua atenção.
-Então aceite somente o café e meu silêncio.
Sentindo-se incomodada com a perseguição do “benfeitor” resolveu parar em um Café qualquer, e sentando-se logo pediu sua xícara de café, forte e doce. Ele observou, e cumpriu o trato se mantendo em silêncio.
-Você é apenas mais um lobo... dos tantos que se fazem de ovelhas.
Os olhos continuavam fixos, e os lábios cerrados, a atitude apaziguadora a desconcertava.
-Minha confiança não é tão barata que se compra com um aspecto sereno e uma xícara de café.
Um sorriso de canto de boca, e ela não resistiu e baixou os olhos para a xícara já consumada.
-A minha mãe traiu meu pai... ele nos abandonou e chegamos à passar fome...
O homem meneou de leve a cabeça, sem se distrair da história e logo com uma olhadela fez com que viesse outra xícara. Ela deu um gole curto.
-Fui entregue à uma senhora, para que me cuidasse em troca de meus serviços, tive que trabalhar ainda muito nova, aos nove, e minha rotina era muito dura- A maquiagem agora se desfazia quase que por completo, e os olhos dele se enterneceram.
-Fui espancada por serviços “mal feitos”, e no dia em que resolvi revidar fui posta na rua.
Era uma criança na rua... No frio.
Os lábios do homem se comprimiram, e notava sua glote se movimentando em uma deglutição difícil, quase dolorosa.
-Fiz parte de grupos... E como disse, o sexo era o pagamento para os cuidados que me ofertavam...
A primeira lágrima se desprendeu dos olhos do ouvinte, ele a limpou timidamente.
-Então não me tente convencer da bondade dos homens, pois da minha história você não sabe um décimo... E nela, os “personagens” não passam de lobos; enganadores! Eu odeio todos! Eu odeio você e essa sua bondade dissimulada!!!
Enquanto ela gritava ele agarrou seus pulsos, e a puxou para seu abraço. Ela não resistiu; era apenas uma garota ressentida.
-Não quero nada de você, só vi sua tristeza e ela me doeu o coração. Além do abraço a acariciou com um beijo terno no topo da cabeça.
-Você é um anjo?
-Não... Sou apenas uma pessoa tentando ser gentil!
-Preciso ir... Eu me sinto melhor.
-Provarei que minhas intenções eram boas ao não perguntar nada ao seu respeito, ou itinerário.
-Assim fica provado que estava enganada... Não são todos lobos.
-Não. - E se despediram naquele mesmo abraço. E ela dobrou a esquina, e encolhida no casaco grosso esquentou as mãos nos bolsos. Três quadras dali e ela retirou a carteira de couro do bolso, conferiu a grande quantidade de notas, e logo os documentos e enquanto ele, notando a falta, perguntava a si mesmo, ela respondia:
-Nem todos são lobos Lúcio, alguns são ovelhas!

Anderson Dias Cardoso.
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...